Crítica literária: O Mundo Onírico e as Insanas Emoções de Isabella Grenieri
Por Gabriel Senador Kwak
Isabella Grenieri foi muito feliz em transpor a mente conturbada de Vênus Syems para o leitor no seu romance lançado faz dois anos. Sim, o nome da protagonista é Vênus Syems e não Vênus Systems!
A personagem vive experiências devido a estados alterados de consciência e alucinações produzidos por sua mente delirante a autora extrai toda a força dramática dessa desconexão da realidade que a caracteriza.
Jovem ainda em idade escolar, Vênus sofre de uma doença mental atroz. E aderimos ao sofrimento dela e até momentos de ternura que ela vivencia. Ela também se dedica a colocar no papel seus raciocínios por vezes sem nexo. O cotidiano a entedia. A jovem tem uma grande atividade mental. Parte maciça e considerável do romance se passa dentro da mente da jovem. A solidão pesa a Vênus. Esse isolamento aprofunda sua angústia. Aborrece-se com as atitudes de pais e familiares em volta e até de colegas de escola. Expor o rosto incomodava Vênus. O leitor vai percorrer os instantes de acentuada baixa estima da jovem, que rivaliza até certa medida com a prima, Michele, bonita, autoconfiante, desinibida e popular. Os questionamentos existenciais de Vênus Syems são os de muitos adolescentes da atualidade, certamente, o que pode levar ao leitor jovem a se identificar com suas ambivalências. Os pais da jovem se veem entre uma condição de carinho, apoio incondicional, espanto e abstenção omissa. Querem vê-la “enturmada” e a incentivam a determinados programas, mas a filha se acha incompreendida pelos pais. Sente anseios de rebeldia. Vênus se interessa por Thor, um amigo de sua prima. Ele ocupa os pensamentos e delírios da personagem, mas ele não se prende a ela, nada obstante ela o atraia. Ela sente alguma coisa diferente por Thor e fica nervosa na sua presença. Foi, numa dada altura, enfim beijada por ele.
Isabella manobra as sensações em que sua personagem absurdada penetra. É o cerne de instantâneos sensoriais. A matéria-prima do livro são luzes, sons, texturas, sabores entremeados de gatilhos emocionais.
A autora é muito sensorial e nos traz a preocupação em demonstrar as roupas, o feitio dos cabelos das personagens e como a protagonista os enxerga, sempre fazendo paralelos insólitos. O cheiro do chiclete, do desodorante, a textura dos alimentos, o jeito dos olhos. A gosma que prende Vênus à cama quando surge numa outra esfera tem cheiro de “mofo, framboesa e lama”. Essa aptidão descritiva, própria de profissionais do ofício da escrita, pode ser ressaltada até na descrição de sais de banho ou das cores de tintas de uma parede. A personagem também é habituada às notas hiperbólicas: “o melhor gosto que já senti”, “os olhos mais verdes que já vi”. Há também um desfile de cores que singulariza o enredo aliciante. Os universos paralelos são tingidos mediante uma paleta de cores pela mente psicodélica de Vênus, que a transporta até a uma espécie de planeta imaginário chamado “A Instituição”, governado por ninguém menos do que sua avó que depois sabemos falecida. Nessa entidade, tudo parece diferente: há a “porta chafariz”, a “parede fígado”…nos remonta um pouco ao “País de Alice” e sua ilogicidade lúdica…
Thor, o “paquera” que mexia com a personagem, também é transportado para esse mundo, como se também ele tivesse sido desligado do mundo real. Lá, Vênus é comunicada que foi recrutada para a “Instituição” porque os organizadores (os “instituidores”) queriam adicionar uma integrante que não acreditasse na “vida quotidiana chata” e que pensasse “de uma forma tão maravilhosa e diferente” sobre o mundo. Ela estava destinada a suceder a avó Madalena, já idosa, na administração da instituição/seita.
O leitor também se vê fisgado pela inclinação em preencher esses planos imaginários por trilhas sonoras muito típicas, reveladoras da predileção musical da autora. Músicas icônicas geracionais!
Não são raras as explosões de choro, de cólera de Vênus. O romance dá a entender que é um produto da sua mente uma amiga imaginária de nome Flez, que é a pessoa com quem mais se identifica, que a acaricia. Tudo leva a crer que é uma amiga imaginária. Quando percebe isso, Vênus perde o chão, desacredita. Perde, enfim, um porto seguro diante de tantas incompreensões.
Há os momentos de clímax, as horas autodestrutivas. Nos momentos de descontrole, a jovem se autoflagela, se agride. Num dos seus surtos, ela se fere com a explosão de um isqueiro. Noutro, fica desaparecida por semanas e é localizada inconsciente em um beco.
Quando retorna à realidade, às vezes a bad trip vem para Vênus. A protagonista anota: “A sensibilidade é a única coisa que me mantém viva e mais me destrói”. (p.38)
No que concerne à experiência temporal construída pela autora, parece-nos que o tempo não é contínuo, não é 100% linear, regulado pelo cunho labiríntico da mente da narradora.
Vendo lagartos por todo o lado, sonhando com najas, a adolescente acaba internada em um manicômio. Nessa clínica, faz amigos como o jovem Doly Meli e a já madura e pitoresca Lora Mafalda (aquela com os óculos gigantescos que “parecem melões”), igualmente pacientes. Aproxima-se bastante de Doly, que também a incita a diversas reflexões e a acompanha em muitos devaneios, a exemplo de Flez. Há uma certa paixão esboçada entre eles. Quando ela sofre um outro surto, já na clínica da Dra. Lindi, o radar de Doly sente que esse ataque estragou “uma coisa importante” que iria acontecer. Os loucos têm seu feeling…
Acredito que a aquisição de maior repertório psicolinguístico, plataforma a que será guindada fatalmente com o decurso do tempo, equipará Isabella a dotar de maturidade ainda mais acentuada na orquestração de estruturas narrativas mais complexas, inclusive se aperfeiçoando rumo a fórmulas mais sutis e a uma maior verossimilhança no desenho e encadeamento dos diálogos, atributo que singulariza, por exemplo, a ficção de Maria Adelaide Amaral.
Várias vezes em situações-limite quando o cérebro da protagonista parece explodir, colapsar, a autora mimetiza o nonsense de situações quotidianas. Isabella desnuda o absurdo da vida.
Internada, despida de vergonhas, Vênus vive uma intensa e deslumbrante paixão — verdadeiro idílio amoroso — com um estudante de Medicina, empático e interessado em pesquisar transtornos psiquiátricos. Edgar frequenta a clínica em que Vênus está. Ele, mais velho do que ela, estabelece uma sondagem afetiva. Logo, se envolvem ternamente, ele a visita em seu quarto. A condição psíquica de Vênus não o assombra e considera a doença dela uma “doença como qualquer outra”. Ele aceita as cicatrizes dela pelo corpo e seus acessos freak de gargalhadas. Fica implícita uma rivalidade entre Edgar e Doly.
Numa das suas crises de ansiedade, Vênus dá um depoimento eloquente e cru sobre a angústia que a crucia quando sente a falta do seu amado:
“Meus pensamentos lutam entre si; alguns vencem, alguns morrem, outros se fundem e lutam contra minha racionalidade.
Meu cérebro deve estar cheio de insetos porque dói pensar.
Minha alma está roxa de angústia.
Eu quero vomitar.
Não há espaço para mais nada dentro de mim.
Estou me autoconsumindo.
Tudo passa tão devagar e, ao mesmo tempo, tão rápido.
A paciência se foi.
A paz talvez nunca retorne.” (p.202)
Um dos pontos altos do livro é uma pensata sobre as borboletas que voam solitárias, uma divagação instigante que Vênus escreve em seu caderno de esboços literários (p.210-211).
A verdade é que a luz de seu namorado Edgar transforma Vênus numa nova mulher e até ressignifica sua insanidade. O astral dele deu a ela novo ânimo e até mesmo uma razão de viver. Sente-se amada. A narradora conta: “Beijo sua boca como se fosse a cura do veneno que me deixou louca.” (p.208)
Ela sai da clínica psiquiátrica e, com o esteio do amor de Edgar, parece não ligar mais pra nada e se assume como esquizofrênica.
Contudo, o destino tristemente a afasta de Edgar. O romance é, enfim, truncado por uma circunstância trágica que não temos vontade, neste texto, de revelar por enquanto. Aparentemente, a protagonista perde o controle de vez, sente-se morrer em vida. Admite que “a felicidade não pertence aos loucos”.
Com maestria, Isabella Grenieri conta que Vênus, no desfecho da narrativa, aceita a chuva de estrelas, o voo das almas, o reencontro com seus amores como seu alter ego Flez. Renuncia, ao que parece, à vida domesticada e regrada. Entrega-se a uma dança sem limites e uma sinestesia de corpos simulada pela narradora. Enfim, Vênus Syems aceita a loucura.
Concluimos que Isabella trabalha com fronteiras borradas entre o que é engendrado na mente da personagem e a realidade (fantasia/fato). A psicose que caracteriza a doença de Vênus não nos permite assegurar a existência de determinados personagens nucleares para a trama invulgar.
Saboreio os achados como “choramos eu e as gotas de chuva decadentes e raivosas que se jogam contra o vidro, porque sabemos que o fim está próximo”, “espelho torto como um rosto contorcido de dor”, “os raios solares se tornam aves amarelas”.
O que é digno de nota ao nos debruçarmos sobre a prosa de Isabella, pelo menos ao que nos foi dado conhecer, é que ela tem o dom demiúrgico da linguagem límpida, adequada e correta, atributo revelador certamente de uma formação escolar invejável. Sensibilidade e inventividade também não lhe faltam.
Com renovado interesse buscarei estar a par de novas incursões literárias de Isabella Grenieri, que está talhada para alçar novos e surpreendentes voos. Não perderei os fazimentos literários da jovem ficcionista. Chego a pensar intimamente se a autora não encontraria sua grande ressonância estética e sua dicção na forma de contos ou histórias mais curtas. A ver…