Crítica literária: Considerações Sobre a Psicodélica Mente de Vênus Syems

Por Joaqui Maria Botelho

A arte dá significado ao caos. Vamos pensar, por exemplo, na pintura icônica de Picasso, Guernica. Na literatura, de maneira especial, não é diferente. Jean-Paul Sartre escreveu sobre isso, considerando que a literatura é a mais completa das artes.

 

Estou aqui para exercer o papel de crítico. E costumo dizer que a crítica é o oxigênio da literatura. Não corrige os defeitos, mas estimula as virtudes. Adianto que vou discutir a carpintaria do romance “A psicodélica mente de Vênus Syems”, entrar nos detalhes da técnica, da armação da obra. O crítico que fica apenas no terreno das ideias às vezes esconde uma completa ignorância dos problemas da ficção.

A ficção precisa de ordem na construção. Não basta ao escritor ser intuitivo – tem que ter técnica, mais até do que inspiração. Encadeamento lógico (não necessariamente cronológico), procura consciente do estilo narrativo, perseverança, vontade e determinação. 


Um dos grandes desafios do escritor é afastar o autor do personagem. Porque toda obra tem traços biográficos. Não é possível escrever sobre coisas que não vivenciamos, pelo menos como observador.  


Em 1949, comentando um conto de autoria da irmã, Marili Ramos, Graciliano, por carta, expõe sua crítica enquanto sedimenta sua profissão de fé literária: “Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos” e conclui: “A sua personagem deve ser você mesma”.


Isabella Grenieri parece se sentir bem nos temas penumbrosos, em que o destino misterioso, de qualquer forma, toma parte. O mistério é base fundamental das lendas e mitos. O que são lendas? São relatos que originalmente partiram de um fato e sobre o qual, ao longo do tempo, foram sendo acrescentados detalhes fantasiosos ou fantásticos, resultados da imaginação aventuresca. O que são mitos? O mesmo que as lendas, apenas que se relacionam com pessoas – pessoas reais, sobre as quais foram sendo acrescidos relatos fantasiosos, peripécias romanescas, milagres, feitos heroicos. Isso tem a ver com a cosmogonia, ou seja, a explicação primitiva da criação doo mundo, e a teogonia, por meio de criaturas que costumamos chamar de deuses.


Não por acaso, Isabella Grenieri selecionou nomenclaturas de deuses para alguns de seus personagens. Vênus, a deidade romana que os gregos chamavam Afrodite, Thor, o deus do trovão e da tempestade da mitologia nórdica da era viking, e Luna, que na mitologia romana era a deusa da Lua, a contraparte da deusa grega Selene. E por não ter sido por acaso, penso que o leitor se interessará em fazer uma pesquisa sobre os atributos desses deuses, para complementar a imagem que a autora deste romance criou para eles.


Vou me ater rapidamente apenas a esses três personagens mítico-mitológicos.


Vênus é a deusa do amor, e não há dúvidas sobre a tensão amorosa da personagem Vênus Syems ao longo de todo o livro, na busca incessante e insana por ser amada e querer amar. Apesar de, logo no início do livro, ela dizer: “Vênus é a personificação do amor e da beleza; sou o oposto disso.” Será mesmo?


Thor representa a força, mas também a fúria, a tempestade, essas forças vulcânicas e telúricas que ocupam a personalidade dessa – vamos dizer assim – heroína.


E Luna, a Selene dos gregos, é a representação do magnetismo que o nosso satélite aplica sobre o nosso planeta e sobre a nossa gente. As crenças sobre o poder da lua são milenares, porque a noite é a antessala do mistério. A lua, a grande luz do sobrenatural: pessoas se convertem em lobisomens sob a lua cheia, nascem mais crianças na lua cheia, a lua é boa ou má para a agricultura e para as pessoas, dependendo da fase em que esteja – não se planta na minguante, não se corta cabelo na minguante. As fases da lua influenciam nas marés (os indígenas já sabiam disso, mas foi Isaac Newton quem conseguiu comprovar). E, principalmente, acredita-se que a lua exerce influência sobre a sanidade das pessoas. 


Cecília Meirelles produziu um poema que chamou de Lua Adversa.

Tenho fases, como a lua.

Fases de andar escondida,

fases de vir para a rua…

Perdição da minha vida!

Perdição da vida minha!

Tenho fases de ser tua,

tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,

no secreto calendário

que um astrólogo arbitrário

inventou para meu uso.

E roda a melancolia

seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém

(tenho fases como a lua…)

No dia de alguém ser meu

não é dia de eu ser sua…

E, quando chega esse dia,

o outro desapareceu…


Não lembra “O Feitiço de Áquila”? E não é o mito de Eros e Psiquê, contado por Apuleio no livro “O Asno de Ouro”? São personagens que se amam, mas jamais se encontram.


Neste livro de Isabella, Luna parece uma personagem secundária, mas o nome dela não aparece à toa na narrativa.  


Curiosamente, sexo é algo que não aparece no livro. Vênus parece uma personagem pudica, cujo envolvimento amoroso se restringe a dois “toques de lábios”. A despeito do nome da personagem.


Note-se que o quesito da onomástica é uma questão funcional dentro do romance. Os nomes foram escolhidos e, repito, não estão ali por acaso. Dipolina é um nome lituano. Madalena hebreu. Jorge, inglês. Sofia, a mãe, significa sabedoria, em grego – sugiro ao leitor que observe se, ao longo da narrativa, Sofia atuará realmente com sabedoria.


Flez, por sua vez, é nome inventado. Até porque Flez é uma pessoa inventada, dentro das alucinações de Vênus.


O leitor deve ter percebido que a autora não se aprofunda, não empresta densidade, a nenhum dos personagens. Eles passam pela narrativa sem deixar marcas fortes. Isso porque a única personagem que importa, para o romance, é Vênus. Todos os outros são apenas acessórios do enredo.


Vamos ver, num trecho, que alguém se aproxima de Vênus e de Flez, na escola. É uma jovem que se chama Melina. Melina, em grego, quer dizer Melodia. E o leitor certamente terá visto que há uma seleção grande de canções distribuídas ao longo de todo o relato. Sobre as canções, seria possível debater com a autora por várias horas, para que explicasse as escolhas e os significados de cada uma. Não teremos tempo, hoje, para essa tarefa.


Mas, por falar em tempo – um dos elementos fundamentais na literatura. 


Um recurso que precisa de muita habilidade para conduzir, dentro da narrativa, é o que eu resolvi apelidar de “antecipar o passado”. Paradoxal, mas funciona assim: o personagem apresenta um recorte do passado, como se ocorresse no presente, e que vai ajudar a desvendar o desenvolvimento e até a conclusão da história. Por exemplo, às páginas tantas, logo no início do livro, a personagem Vênus diz que está no chuveiro e vê a água cair, cair, cair. Notem que lá na frente, a personagem realmente cai. No sentido literal ou no sentido emocional.


Em literatura, nada é – ou nada deve ser – supérfluo. Por exemplo, se no texto aparece uma espingarda, em algum momento essa espingarda vai ter que disparar um tiro. Observe o leitor, no romance de Isabella, que há numerosos trechos em itálico. Tente reuni-los, numa segunda leitura do livro, e será possível verificar que compõem uma narrativa paralela, quase que um relato complementar. Trata-se de linguagem de introspecção. Em nomenclatura de pesquisa folclórica, chamamos a este recurso de “disseminação e recolha”. Isto é, os comentários em itálico vão sendo colocados no texto para, quando juntados, formar um corpo compreensível de texto, quase um hipertexto. É um recurso interessante e moderno.


Outro recurso que denota introspecção, e ao mesmo tempo, reforço, é a repetição de termos. Sempre, ou quase sempre, em ritmo ternário.  

Danço. Danço. Danço.

Caem. Caem. Caem.

Grito. Grito. Grito.

Caminho para lá e para cá, para lá e para cá, para lá e para cá.


Num ponto, Flez, a amiga que mais tarde descobriremos ser imaginária, desapareceu. Vênus procede a uma repetição em quatro linhas, que funciona como se houvesse um movimento de maré, ondas que se sucedem: “Flez some de novo. Flez volta. Some. Volta. Some. Volta. Some. Volta. Some. Volta. Some. Volta. Some. Volta. Some. Volta. Some. Volta. Some. Volta. Some. Volta. Some. Volta.”


Curiosamente, o romance registra diálogos entre Flez e Vênus. O leitor que se dispuser a uma releitura, volte e releia os diálogos das duas. Na realidade, é um monólogo de Vênus, em que ela se pergunta e ela mesma se responde. Afinal, só ela existe. Esse é o recurso de narrar uma história através do chamado “fluxo de consciência” ou monólogo interior. E observem que essas conversas já ocorrem à página 52, quando o enredo ainda está bem longe de evoluir para o esclarecimento dos desvios mentais de Vênus. 


Um pouco adiante, Vênus declara: “Quando Flez me vê, percebo que seu olhar não é feliz; começo a tremer, sinto notícias ruins chegando”. Seria o espelho?


Certamente. À página 149 há uma descrição detalhada da imagem que Vênus vê ao espelho. Ela parece maligna, parece louca. E gargalha. Gargalha repetidamente, sem vírgulas, sem pontuação alguma, uma gargalhada colada na outra. É a representação de uma reação física, como a explicar que a gargalhada fosse asfixiante, sufocante.


Na história da humanidade, o fonema precede a sílaba. Ou seja, antes se narrou verbalmente a história, as lendas, os mitos, e só depois se escreveu. Hoje, nas leituras que fazemos, o som das palavras reverbera mentalmente, e por isso algumas construções inadequadas nos incomodam. Essa digressão não se refere ao texto de Isabella. Trouxe a reflexão apenas para introduzir uma questão literária.   


Na linguagem oral, conseguimos dar ênfase a palavras por meio de entonação, pausa, ritmo. Na linguagem escrita, precisamos nos valer dos sinais de pontuação para obter o efeito. E também para obter coesão e coerência nas estruturas sintáticas. Isabella sabe usar a gramática.


Destaco o ponto e vírgula, um sinal de pontuação cujo uso demanda bom conhecimento gramatical. Serve para unir orações que, embora não sejam coordenadas, gramaticalmente, precisam estar no mesmo período para complementar uma ou mais ideias. Um exemplo no livro: Não sinto nada. (ponto final). Não; ponto e vírgula, na verdade vírgula, sinto ponto e vírgula sinto como se fumaça flutuasse em meu peito ponto e vírgula é horrível ponto de exclamação.


E por falar em gramática, vamos nos lembrar de que toda a narrativa está no tempo presente. É uma indicação de que tudo acontece agora, neste momento, como num turbilhão que engole a protagonista.


Apenas em três momentos aparecem verbos no passado. “Despedi-me temporariamente…” , “Edgar sumiu” e “Edgar se foi”.


Já tomamos a bênção do tempo, o senhor da narrativa. Vamos ao segundo elemento fundamental: o espaço. Neste quesito, Isabella trata os ambientes com o detalhamento – exageradamente necessário – para induzir o leitor, desde o começo do livro, a supor que algo estava a mais, demais, nas descrições. Cores, sons, texturas, cheiros, gostos. Tudo ali, envolvendo a protagonista como num reflexo difuso e torto da realidade.


“Layla tem olhos que parecem café. Acho que ela gosta de rosa claro porque é a cor predominante em seu visual. Seus cabelos são cacheados e estão presos em uma trança sereia; por eles descem presilhas em formato de borboletas cor-de-rosa; sinto cheiro de rosas vindo de seu corpo, mesmo de longe.”


Note-se que, mesmo nas descrições, a protagonista se vale de mais de um sentido – aqui, no trecho que acabo de ler, visual e olfativo.


E mais, os espaços mudam frequentemente. Este é outro elemento narrativo importante: o espaço é incerto. A personagem não sabe, em muitos momentos, onde está e nem sequer se está mesmo onde gostaria que estivesse.


Cito: “Há algo áspero e quente embaixo das minhas costas, estou deitada. Espreguiço-me, preparando-me para me levantar. Toco em meus cabelos, sinto água, eles estão úmidos. Esfrego os olhos para me localizar; olho ao redor e os arregalo quando descubro que estou em uma praia. Estou suja de areia e molhada de água do mar. Como vim parar aqui?”


Cito: “De repente, quero ir para casa, quero um abraço, quero carinho. Mas não sei onde é minha casa, não sei se tenho casa”. 


Vênus quase nunca sabe onde está. As descrições são específicas do ponto de vista físico, mas o espaço é vago em termos geográficos. Uma indicação de perda de referência e de sentido.


“- Vocês poderiam me dizer onde estou?

– No Café dos Perdidos, está escrito ali na porta.

– Eu sei. O que eu gostaria de saber é em que cidade estamos.

– Estamos no Nordeste.” 


À página 35, surge a indagação filosófica universal: quem sou e de onde eu vim? Isabella escreve, já expondo a instabilidade emocional e a inconstância da personagem Vênus: “Tento me convencer, mas cada vez parece mais difícil saber o que e quem sou.” 


Nessa busca de resposta, Isabella escreve: “Me abraço; me autodeclaro minha própria âncora; mas eu não preciso de uma âncora, eu preciso navegar. Uma inescapável alusão a Fernando Pessoa: “Navegar é preciso; viver não é preciso”. 


E onde está o psicodélico nesta narrativa? 


Nos delírios, principalmente, nos mergulhos na escuridão, nas cores e luzes que ofuscam a racionalidade e resultam em efeitos alucinógenos. A explosão do isqueiro é uma cena psicodélica. Há muitas outras. “Ela sussurra e sua voz sai triste, falha, quebrada”. A imagem que a autora passa é como a da imagem craquelada de uma tela. Novamente o psicodélico aqui: “É isso o que as luzes falam, talvez elas estejam pedindo socorro”.


Apenas para esclarecer, à página 96 surge a sigla BAC, que pode ter ficado enigmática para os leitores. Pode significar Concentração de Álcool no Sangue. Aparentemente, seria uma forma de a autora revelar que Vênus consumiu bebida alcoólica, o que contribuiria para delírios? Fica a pergunta para ela.


SINESTESIA


A sinestesia é a associação de palavras ou expressões em que ocorre combinação de sensações diferentes numa só impressão. Por exemplo, à página 23, o último parágrafo é dedicado à visão, na observação do panorama e do ambiente. Porém, as cores remetem a outras sensações. Cito: “O tom azul celeste remete à tristeza… As cores laranja, vermelho e rosa do pôr do sol transmitem dor. Aos meus olhos, o mundo grita e sofre de angústia’.


Pensando em cores, a personagem Flez tem olhos totalmente verdes. E aqui vai uma curiosidade: apenas 2% da população mundial têm olhos totalmente verdes – é a cor mais rara. A propósito, mais adiante, Vênus discorrerá sobre olhos hazel, uma cor considerada rara e única – uma mescla de tons de verde, castanho e dourado, com nuanças de azul ou âmbar.


Vênus diz que sente vontade de comer os olhos hazel de Ruby. “Imagino como seria enfiá-los em minha boca; acredito que tenham um gosto bom, mas não têm. Quando os mordo, sinto gosto de metal, fico com ânsia. Depois de alguns segundos mastigando-os, o gosto metálico é substituído pelo de perfume quando entra na boca acidentalmente.”


Logo à página 25, surge o frio da neve, uma sensação tátil. Porém, há uma dicotomia de significado da palavra congelamento: frio e tempo. O tempo pode ficar congelado, imóvel. E o parágrafo termina com uma frase enigmática: “A única coisa gelada por aqui é muito afiada”. Será uma lâmina de arma branca? Será que alguém vai ser cortado? De novo, se há uma espingarda na narrativa, ela vai ter que atirar.


Um trecho todo em itálico, intitulado Espumas de banho, comparece para compor essa fusão de sentidos: as cores, os cheiros, as sensações táteis, os sabores associados.


Saltemos para a página 62. Ali está o paladar. “Na cozinha, abro a geladeira e vejo uma jarra de suco de uva; pego um copo e o encho de suco, deixo-o sobre o balcão. No freezer, encontro sorvete de creme, coloco em um pote transparente. Também encontro calda de chocolate cremosa, granulado colorido e bolinhas de chocolate. Junto tudo com sorvete e crio um delicioso sundae. Sento-me na cadeira do balcão e como o sundae que me dá água na boca. Mordo meus dedos. Sundae, sangue e suco de uva preenchem meu estômago e, por um breve momento, concentro-me apenas em comer.”  Segue-se o instante em que Thor encosta seus lábios nos lábios de Vênus. E a canção, que fala da sensação de que faltam lips like sugar; sugar kisses.


Vejo à página 147 uma expressão que me parece a chave para a compreensão de várias questões do livro: “Avanço cinco passos, as portas se abrem e meus seis sentidos explodem”. Qual seria o sexto sentido? A intuição? Deixo a pergunta para Isabella.


À página 73, Sofia, a mãe da personagem, dirige o automóvel para o litoral. Vênus diz: “Escuto vozes, são muitas vozes; elas se juntam e formam uma única voz, aguda demais, como um zumbido de sussurros”.


A aliteração, a sibilância, trazem ao leitor uma impressão auditiva cheia de traços aflitivos. Em seguida uma repetição – como que uma antecipação, um augúrio: Cuidado, cuidado, cuidado – que Vênus decide ignorar.


Um pouco à frente, página 83, Vênus traz outra antecipação do passado: “Tenho medo de observar a escuridão da noite; sinto que algo ruim vai acontecer sempre que o faço”.  


Há um padrão nessas repetições. E, lembrando que literatura requer muito trabalho e muita pesquisa, penso que cabe, do ponto de vista da neurologia, imaginar que a esquizofrenia diagnosticada em Vênus não teria como agravante o autismo? São enfermidades diferentes, mas com vários sintomas semelhantes. A perda do contato com a realidade, geralmente causada pela impossibilidade ou dificuldade de comunicação interpessoal. Vênus não se comunica, prefere o isolamento, e tem comportamentos estereotipados: só gosta de água gelada, enrola os cabelos no dedo indicador quando nervosa ou incomodada, não pode fechar os olhos por mais de 20 segundos, faz todas as coisas três vezes, abre os olhos e pisca oito vezes. Gostaria, depois, de ouvir de Isabella a respeito das pesquisas que realizou para escrever o romance.   


No fluxo narrativo, devo confessar que tive uma decepção. Tudo está seguindo numa aura de mistério, de suspense, de delírio. De repente, à página 101, a autora coloca uma frase:

– Não vejo motivo para enrolar o que tenho para te dizer, então vou dizer de uma vez. Esta é uma instituição secreta.


Para mim, no momento da leitura, pareceu como um filme de suspense que o diretor resolve da maneira mais simplista de todas: a causa de tudo é uma seita religiosa ou demoníaca. Mas segui a leitura, e a decepção desapareceu no momento que percebi que a própria instituição era uma ilusão.


Ocorreu-me um segundo momento de decepção à página 138, quando a Dra. Lindi revela a Vênus que a moça é portadora de uma doença mental. Novamente supus que seria a alternativa fácil da narradora de explicar o surreal de toda a narrativa. Mas percebo, logo, que é uma segunda chave para a compreensão do enredo. Toda a narrativa faz sentido justamente porque muitas vezes não faz sentido. 


Eu mencionei a referência implícita, no texto, a Fernando Pessoa. Há outras, bem disfarçadas, remissões a autores clássicos. Por exemplo, a Lewis Carroll, cujos livros são estudos psicanalíticos. Além da presença do espelho, que representa o duplo, a personalidade dividida, vejo essa aproximação no trecho que começa com esta frase: “Suspiro e engulo o líquido de uma vez. Faço mais uma careta. A textura é estranha e faz cócegas no céu da boca, mas o gosto é doce e sobrenatural”.


Não é a Alice?


Ainda no campo do fantástico, aparece um personagem com a camiseta estampada com duas palavras: Allan Poe (o poeta norte-americano que produziu principalmente literatura centrada no fantástico). E o tal personagem se chama Edgar. É claro!


Há mais referências literárias. Em certo ponto, há uma piscina na forma de cérebro, outra de fígado. Lembra Ulisses, a paródia que James Joyce escreveu sobre a Ilíada, de Homero, e que em vários momentos trata de aspectos da fisiologia humana, com atividades cotidianas, como defecar, menstruar, peidar, arrotar ou cutucar o nariz, e que assustaram os leitores da época.


Quero lembrar aqui o escritor uruguaio Horácio Quiroga, do começo do século 20. Ele escreveu o ‘Decálogo do Perfeito Contista’. O texto é, por um lado, a profissão de fé de um exímio contista, a partilha generosa, de um conhecimento forjado a duras penas, com o objetivo, talvez, de maneirar os excessos literários da juventude, mas, por outro lado, é também um documento literário de uma época e de um modo de se pensar a literatura.


A primeira de suas recomendações para o contista, mas que pode ser estendida para qualquer gênero literário, é esta:

1 — Crê em um mestre — Poe, Maupassant, Kipling, Tchekhov — como em Deus mesmo.


De novo: Crê em um mestre como em Deus mesmo. Nada a ver com religião, mas com ídolo, como referência intelectual no nível do divino, na admiração pela literatura de qualidade, consolidada, trabalhada, burilada. Procurar os bons autores para formar repertório, definir estilo, comparar acertos e equilibrar o tom, o ritmo, a concisão, a densidade.  


Percebo que Isabella Grenieri, que talvez não tenha lido Horácio Quiroga, intuiu essa recomendação, ou foi orientada pela escola, pela família, pela própria inteligência, e trouxe para o seu livro remissões importantes de grandes autores clássicos, como acabamos de ver. Trabalhou com arte e engenho.


Quero concluir com uma frase de Eça de Queiroz, um dos autores que todo escritor deve ler:

“Eu não sou um moralista; sou um artista; o artista é um ser nefasto, que não é responsável pelas suas fantasias nem pelas suas vinganças”.


Há muito mais que pode ser debatido sobre este livro de Isabella, de trama complexa e fundamentada, com qualidade literária, linguística, e cheio de referências interessantes. Mas encerro aqui a minha contribuição, para deixar que o debate que vai se seguir ilumine outras questões que o tempo não me permitiu abordar.


Muito obrigado.